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Vingadores: Ultimato | Precisamos de um final feliz?

Desde que fomos apresentados às primeiras histórias que nossos pais nos contavam, ainda crianças, nos acostumamos com uma confortável fórmula narrativa, na qual o herói, muito embora tenha que enfrentar uma série de desafios, supera todos os obstáculos e tem um final feliz.

Essa “receita” é replicada em materiais nas mais diversas mídias existentes, desde livros até filmes, séries e jogos de vídeo game. E vamos ser sinceros: quem não gosta de um final feliz, que atire a primeira pedra.
Mas a questão é: será que toda história precisa ter um final assim?

Materiais como Game of Thrones vieram para mostrar que não. Pergunto se você, querido leitor, querida leitora, quer ver um final feliz em Game of Thrones. Se a resposta for positiva, temo que você esteja errado.

Isto pois o que encantou na obra de Martin é justamente a subversão causada nos sentimentos e expectativas do público. Quem não estava contando que Eddard Stark seria o grande herói das Crônicas de Gelo e Fogo e acabou quase perdendo a cabeça junto com o Lord de Winterfell quando ele morreu?

Seria muito confortável e conveniente trilharmos o caminho do herói junto com Ned, mas quando sua morte chega, é difícil de engolir. E é difícil não somente por termos nos apegado a um personagem muito carismático e ficarmos órfãos de um protagonista, mas também por começarmos a pisar num terreno desconhecido: uma história em que a morte daqueles que julgamos como os heróis principais da narrativa pode ocorrer a qualquer momento.

E depois da decapitação de Ned, nunca mais sentimos que os heróis das Crônicas de Gelo e Fogo estavam seguros. Sempre houve, e continuará existindo, um medo intrínseco de que a qualquer momento eles poderão morrer, e de uma forma bem inesperada, diga-se de passagem. Mas o que isso tem a ver com Vingadores? Como diria o velho Jack, vamos por partes.

Muito mais do que os maravilhosos efeitos especiais e o roteiro impecável, a cereja do bolo em Guerra Infinita foi a sensação de perigo trazida pela presença do titã louco, especialmente com o estalar de dedos ocorrido no final do filme. Até aquele ponto, não havíamos sentido que a vida dos heróis mais poderosos da Terra realmente esteve em risco em nenhum outro momento da decenal trajetória do MCU.

É claro que a longa lista de adaptações sofríveis dos vilões da casa das ideias, com pouquíssimos nêmesis realmente memoráreis, ajudou a construir esse ambiente seguro para nossos heróis, mas o grande x da questão é que nunca foi criada uma situação que nos fizesse temer pela vida de qualquer dos heróis mais poderosos da Terra (a morte do Mercúrio não conta, já que o personagem foi tão mal explorado que nem tivemos a chance de nos apegarmos a ele).

Guerra Infinita, como dito, mudou totalmente essa perspectiva, e pela primeira vez, passamos a ter medo do que poderia acontecer com algum vingador. O fim da película nos mostrou que nenhum membro da equipe estava imune ao estalar de dedos de Thanos, e muitos heróis queridos pelo público foram varridos da existência.

É claro que Ultimato não vai poder simplesmente enterrar todos os personagens que foram assassinados pelo Titan Louco – inclusive levando em consideração que muitos desses heróis, como o Pantera Negra, os Guardiões da Galáxia e o Doutor Estranho já tem sequências de seus filmes solo confirmadas – mas seria de pouca coragem permitir que um evento tão cataclísmico como a Guerra Infinita tenha um simples final feliz, com a ressurreição todos os vingadores mortos na Guerra Infinita e a derrota de Thanos.

Um evento de proporções tão épicas precisa deixar uma consequência considerável no mundo heróico. É nessa linha de raciocínio que faço o comparativo com a obra de Martin.

Guardadas as devidas proporções, a guerra dos tronos nos mostrou que existem caminhos interessantíssimos que podem ser explorados com a morte de um protagonista. E com obras tão ricas como os quadrinhos para embasar o futuro do MCU, é de se esperar que a Marvel Studios tire algumas cartas da manga para surpreender seus telespectadores.

Os Guardiões da Galáxia, por exemplo, possuem um sem número de formações. Logo, a existência de uma sequência confirmada, passada após os eventos de Ultimato, não quer dizer, necessariamente, que todos os seus membros deverão retornar dos mortos.

E isso é incrível, já que teremos a oportunidade de ver um novo entrosamento entre a equipe. Aliás, esse filme poderia até mesmo funcionar como uma espécie de “reboot” dos guardiões para os próximos dez anos da casa das ideias.

Não digo que a Marvel deve mudar o tom de seus filmes, buscando fazer apenas um conteúdo sombrio. É a variedade de cores da paleta que torna tudo tão interessante. Mas é indiscutível que Ultimato precisa manter o legado de Guerra Infinita para mostrar aos fãs que, em algum momento, seus heróis favoritos irão fracassar, irão morrer, mas ainda assim triunfarão sobre o mal.

Um simples final feliz, no qual todos os vingadores são ressuscitados e o universo é salvo é muito medíocre. É justamente esse conceito que dará toda a vitalidade para o próximo grande evento do MCU, que sucederá a saga das joias do infinito. Por hora, vejamos o que nos espera em Ultimato.

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Rafael Sacata
Advogado, nerd, cinéfilo e pirado por quadrinhos. Passa as horas de descanso discutindo com a namorada sobre quem venceria uma batalha entre Batman vs Superman ou Capitão América vs Homem de Ferro. (Todo mundo sabe que os vendedores seriam o Batman e o Capitão).