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Review | Black Mirror S04E04 – Hang the DJ

Já repararam como hoje em dia somos tão dependentes dos aplicativos? Pois é, é aplicativo pra controlar a agenda, controlar os gastos, conversar com os amigos, comprar livros, dar uns beijos, enfim, pra tudo. E por mais que, no geral, Black Mirror seja uma série que brinque com uso da tecnologia em futuros distópicos e de como isso interfere com problemas implícitos na sociedade, a questão explorada em Hang the DJ é tão contemporânea, que chega assustar.

Aliás, talvez o tema deste episódio seja uma das questões mais antigas da humanidade. Afinal, os casamentos arranjados, onde as famílias mais tradicionais eram o sistema que decidiam o futuro dos casais, é o Match mais antigo da sociedade. Ao mesmo tempo temos hoje o Tinder, Happn, Badoo, ParPerfeito, entre outros apps de relacionamento, onde colocamos algumas fotos, gostos pessoais, qualidades e saímos escolhendo, ou sendo escolhidos, como um cardápio gigante. Isso sem mencionar em encontros às escuras que nossos amigos nos arrumam, de vez em quando.

A realidade é que por mais autônomos que tentemos ser, na maioria das vezes nos achamos frágeis pra encontrar o nosso “parceiro ideal”. Necessitamos de crivos mesmo que sutis, como aquela ansiedade de apresentar o namorado para os pais ou pra sua melhor amiga. Ou quando você mostra a foto de uma gata que está afim para seu colega de trabalho, esperando que ele diga “uau, linda, investe manolo!”.

O 4º episódio da 4ª temporada da série, produzida e roteirizada por Charlie Brooker é Hang the DJ,  uma comédia romântica tão black mirror, que poderia ser a minha ou a sua história.

Seguindo a linha mais leve da atual temporada, tem quase o mesmo clima de St. Junipero, da temporada anterior e aborda a jornada do casal Frank (Joe Cole) e Amy (Georgina Campbell), que depois de passarem por tumultuados relacionamentos, impostos por um app,  irão se rebelar contra o sistema, como em uma releitura Black Mirror de Romeo e Julieta (#chupa Shakespeare).

Neste sistema, tudo é imposto, a casa onde moram, a comida que comem e, pasmem, até o tempo de relacionamento, nada é questionado, já que o app tem 99,8% de probabilidade de acertar. Sim, o casal já nasce com prazo de validade (como se não acontecesse atualmente). A cada relacionamento que você tem, o sistema lê seus dados, seus costumes e reações e te apresenta um novo parceiro, até que, depois de algum tempo, lhe oferece o parceiro perfeito. (ok Google você já faz isso, ahh você tambem Facebook, pare de me sugerir pessoas pra add)

Só que no decorrer do episódio, vemos que por mais que sejam imposições do sistema, as situações que desgastam os relacionamento são tão fáceis de ver no nosso dia-a-dia. Um parceiro que transe bem, mas tenha manias que irritam, ou um cara que seja carinhoso e atencioso, mas péssimo de cama, pessoas que falam demais, outras que nem abrem a boca. Quantas vezes você vê pessoas que estão presas em um relacionamento sem futuro, mas que não largam por comodismo ou simplesmente porque a sociedade (o nosso sistema) impõe (mesmo que só na cabeça do casal) que fiquem juntos.

O que acontece no final do episódio é algo que na primeira cena já sabíamos, o casal protagonista tem que ficar junto, independente do que o sistema diz. E assim que os dois se rebelam e tentam fugir o plot twist acontece. Ambos percebem que estão dentro de uma simulação, o sistema é um app, com mais 999 versões deles, e, contando com eles, 998 casais também se rebelaram (ta aí os 99,8%). É aí que o match acontece entre eles, na “vida real”.

Quando me dou conta que ambos estão em uma balada apenas usando um app e o episódio meio que foi uma simulação que se passou em segundos pra eles, penso automaticamente, “meu isso é muito black mirror” e mesmo o desfecho dos dois juntos sendo previsível, dá um quentinho no coração esse final feliz.

Não tem como não abrir um sorriso ao escutar Panic do The Smiths ao fundo da cena final, porque não entendia, até aquele momento, o porquê de Hang the DJ, como título do episódio. Escutar os versos Hang the blessed DJ, because the music that they constantly play it says nothing to me about my life, HANG THE DJ, HANG THE DJ, é como escutar Geração Coca-Cola da Legião Urbana. Somos desde sempre programados para fazer nossas escolhas, mas decidir se vamos ou não nos rebelar contra o que o nos impõem, é  com a gente! A DJ pode até pôr a música, mas somos nós que escolhemos se vamos dançar ou se aquela é uma boa canção.

Na maioria dos episódios de Black Mirror há uma distopia que da um soco no estômago e faz a gente pensar por dias e, apesar da temporada estar mais fraca que as anteriores, esse soco me pareceu mais um tapa na cara que mesmo com uma mensagem otimista, nos questiona sobre a nossa real liberdade de escolha. Um bom episódio, apesar de previsível, dirigido por Timothy Van Patten, conhecido por seu trabalho na HBO com Game of Thrones, Sopranos e Sex and City.

PS. Um Easter Egg muito bacana é quando no primeiro episódio Robert Daly, conversa com a recepcionista ela esta usando o app do episódio.

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Neto Sambora
Nerd e Publicitário da cidade do sanduíche. Amo chocolate, hambúrguer, Coca-Cola zero (sim, sou estranho!) e tudo que o Mark Millar escrever. Não me julguem, mas conheci Star Wars com o Ameaça Fantasma e sou fã do Nicholas Cage!