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O Que Ficou Para Trás (His House) – Netflix | Compreendendo o filme

O Halloween desse ano passou, e a nossa seleção de filmes de terror já foi explorada como em outros anos. Eis que surge a Netflix com His House, que agita as redes sociais e prova que o terror é muito mais do que aquele filme batido e sanguinário, onde podemos lidar com um mal palpável ou com uma assombração que assola uma residência. O terror que choca no momento é o psicológico.

His House é mais uma dessas tramas, e nos conta a história de um casal refugiado da guerra do Sudão, que após diversos perrengues em sua fuga do país, busca asilo na Inglaterra, aonde é mantido num centro de detenção até que tenha uma casa selecionada para que servisse de abrigo a eles durante essa adaptação.

O longa é dirigido e roteirizado por Remi Weekes, e é seu primeiro trabalho num longa. Produzido pela BBC, foi distribuído recentemente no cenário internacional pela Netflix, e logo num primeiro impacto já chocou o público. O elenco conta com a brilhante atuação do casal Wunmi Mosaku (Lovecraft Country) e Sope Dirisu, além de Matt Smith (Doctor Who).

Após 1h30 de filme, você deve ficar se perguntando sobre tudo que a trama apresentada, se de fato entendeu, e até mesmo questionando o que de fato é real naquilo tudo. Por conta disso, adianto que teremos SPOILERS a frente sobre a trama de O Que Ficou Para Trás.

O grande terror é o trauma

Se já tivemos filmes de terror em que o mal era representado por uma assombração que vivia em um poço, ou um palhaço que se transformava em nossos maiores pesadelos, indo até uma criatura animalesca que invadia nossos sonhos, em His House esse mal é metaforizado pelo trauma, motivado por uma situação que está muito próxima da realidade.

A migração de refugiados africanos para a Europa por conta de guerras religiosas ou territoriais, é uma constante e com certeza está acontecendo enquanto você lê este texto. O filme acerta muito em trazer para o espectador esse tema tão necessário e pesado, mas não através de um drama de época ou o baseado em fatos reais, mas sim fazer valer dessa realidade traumática para fomentar a criação de um demônio, ou melhor, de uma maldição que passa a assolar a vida do casal.

A casa que serve de moradia para os dois não é assombrada, muito menos construída em cima de um território indígena ou palco de um massacre no passado, mas sim serviu como cenário para que o mal que atormentava a mente de Bol e Rail saísse do cenário dos pensamentos e passasse a atormentá-los todas as noites e a cada momento que se viam quietos e solitários, na calada da noite.

O desconhecido é temível

Quando são levados até a casa, Bol e Rail são apresentados a uma série de restrições impostas para que pudessem viver aquela liberdade condicional na casa. A liberdade “pero no mucho” faz com que eles tenham receio de qualquer movimentação da vizinhança ou modificação que venha a ser necessária na casa.

Bol até se aventura fora da casa e tem sucesso na empreitada, conhecendo a igreja dos arredores e até se entrosando com os locais no pub durante uma partida de futebol. Já Rail quando o tenta fazer, se vê perdida em um labirinto de becos da vizinhança num mundo que é muito distante do que ela cresceu e aprendeu a conviver. A cena é emblemática e termina com um fatídico “Volta para a África”, proferida por um garoto de pele negra, mostrando mais ainda a xenofobia que a trama carrega através de diversos elementos.

Cada um lida com essa situação de uma forma, e isso é brilhantemente trabalhado pelo roteiro, que apresenta um Bol querendo se adaptar a sua nova realidade de forma bruta, chegando até a queimar tudo que carregaram da África, em contrapartida que Rail mantém firme suas tradições, orando para o bruxo que de acordo com ela é quem está mostrando que eles foram de encontro com o mal na Inglaterra e naquela casa.

A realidade é assustadora

A questão de migração Sudão e Inglaterra é uma realidade e isso não é dúvida para ninguém. Mas o que mais é real nisso tudo? De acordo com alguns comentários do filme que vi, incluindo do diretor e elenco, a representação folclórica africana da entidade maligna que conversa com eles, de fato é algo forte na religiosidade do continente, e é representada fielmente na trama.

Todas as almas perdidas que representam os refugiados e que se fazem valer das paredes da casa como sua moradia, são totalmente fictícias, e não há relatos de inspiração em uma história real. O que é mais assustador disso tudo não é nem se soubéssemos que algo dessa trama é real, mas sim ver refletidos em nossos olhos como é o sentimento de pessoas refugiadas em adaptação a uma nova realidade.

His House é um filme que serve muito mais como reflexão pelo forte pano de fundo que a trama traz representada por meio de metáforas sobrenaturais na trama, do que um simples filme de terror que serve para provocar aquele temor numa sexta-feira a noite. Ao final do filme, fico muito mais chocado do que com medo. Um soco no estômago bem dado.

Ressalto que todas as percepções expostas acima vem de minha interpretação do que O Que Ficou Para Trás refletiu em mim. Tem alguma interpretação diferente ou ficou em dúvida de outra parte do filme não citada? Vamos conversar nos comentários!

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