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Diversidade na Companhia das Letras

O Brasil sofre com um racismo estrutural e institucional, legado dos tempos da escravidão, mas muito estabelecido em nossa contemporaneidade. Como indica o termo, o racismo “estrutura” as relações sociais em nosso país, estando presente nas mais diversas áreas: na educação, na saúde, na cultura, nos esportes, no trabalho. Práticas e atitudes racistas alijam uma parcela considerável de nossa população, tolhendo-a de oportunidades indispensáveis e fundamentais e impedindo-a de exercer atividades profissionais na plenitude de seu potencial criativo e produtivo. A erradicação do racismo é ainda mais urgente em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, em que pretos e pardos, segundo dados do IBGE, representam quase 56% da população.

Parece que finalmente o tema do racismo começa a ganhar prioridade no debate público brasileiro. Nunca é demais lembrar que a questão não diz respeito apenas às pessoas negras, e sim a toda a sociedade. Tampouco é exclusivamente moral, pois de nada vale continuarmos a dizer que “não somos racistas”. É passada a hora de praticarmos atos antirracistas, e atuarmos como aliados nessa luta que é de todos.

Como o racismo estrutura todas as nossas relações, ele impacta também o ambiente editorial, onde não só a maior parte dos funcionários em postos de direção são brancos, como os catálogos são majoritariamente compostos por autores brancos e de origem europeia. Por isso é preciso tomar medidas práticas e propositivas, na esteira de outros setores, como as universidades públicas, que finalmente implementaram cotas, ações de reparação e de afirmação positiva para seu corpo discente e docente. A luta antirracista é um processo sem volta nesse país; não só nas instituições públicas, mas também no ambiente empresarial e privado. Nessa luta ainda devem ser incluídos outros grupos, como as populações LGBTQ+, indígenas e pessoas com deficiência, bem como suas intersecções.

O Grupo Companhia das Letras elaborou, nesse contexto, o conjunto de ações detalhado a seguir. Temos consciência de que o movimento ainda é insuficiente. Além de contratar, é necessário incluir e manter, sendo necessárias medidas que garantam a permanência dessas pessoas na Companhia; o que implica processos de formação e de mudança na mentalidade e na imaginação interna. Sabemos, porém, que esse é um caminho sem volta e que é preciso mudar de maneira firme e resoluta.

Jamais teremos no Brasil uma economia forte e uma sociedade pujante e produtiva (e precisamos delas para vencer a extrema pobreza e a desigualdade que hoje nos assolam) se o racismo permanecer operante entre nós. Também não teremos uma democracia verdadeira enquanto permitirmos que o racismo vigore, e de modo tão perverso, sob a frágil justificativa da meritocracia. Uma sociedade comprometida é aquela que planeja ações e as implementa de forma responsável e sem recuos.

OS PROJETOS

Desde o começo de sua história, a Companhia das Letras sente orgulho de ter abraçado editorialmente — e também em suas manifestações públicas — causas antirracistas e que defendem e representam negros, populações indígenas e pessoas LGBTQI+. Nos orgulhamos dos livros publicados e de nossas iniciativas, mas entendemos que ainda é pouco. Para nós, este é um momento de autocrítica e de reflexão, e esses projetos formam uma parte pequena de nosso vasto catálogo e de nossa inserção no debate público.

Reflexões e amplas discussões, que têm pautado o dia a dia da empresa, nos levaram à convicção de que mais diversidade é fundamental. A partir dessa análise, decidimos trazer a público alguns projetos que, sabemos, ainda não dão conta de toda a complexidade do tema, mas que apontam o começo de um processo de transformação da editora em um espaço cada vez mais plural.

Contratações editoriais

Fernando Baldraia — doutor em história pela Universidade Livre de Berlim, com pós-doutorado pela mesma universidade no Mecila/Cebrap — passa a integrar a equipe no recém-criado cargo de editor de diversidade, transversal a todos os selos. Fernando, que em suas próprias palavras é “cria da capoeira, do rap e da quebrada”, terá como foco principal a busca de novas — e a projeção de antigas — vozes, causas, projetos e ideias que por barreiras sociais de diversas ordens não chegam ao establishment editorial. Fiel à tradição da Companhia, que estimula a formação interseccional de seus editores, esse campo de atuação não será exclusivo, mas, antes, combinado com o desenvolvimento de projetos em quaisquer outras áreas da editora. 
  
Os criadores de conteúdo Ana Paula Xongani, empresária e apresentadora, e Samuel Gomes, escritor e palestrante, atuarão como editores convidados do selo Paralela e auxiliarão no processo de avaliação de originais e seleção de títulos para publicação.

Censo entre funcionários e do catálogo

Para se ter uma noção mais clara da composição e da diversidade tanto do catálogo quanto do quadro de funcionários, serão implementados em agosto dois censos: um deles voluntário, para os colaboradores da empresa, e outro das obras do catálogo da editora. A partir dos resultados apurados, traçaremos um diagnóstico da situação atual e definiremos novas iniciativas e metas a serem atingidas.

Comitê de responsabilidade social

Formado há dois anos, o comitê discute políticas de diversidade para o Grupo Companhia das Letras, analisa doações de livros visando a inclusão social e a diminuição da desigualdade, elabora e aprova iniciativas e políticas internas buscando a maior pluralidade na editora.

Projeto de trainee e estagiários

Na tentativa de desenvolver e manter jovens talentos, a editora passará, em 2021, a ter um projeto de trainee com duas vagas anuais destinadas, em sua totalidade, a pessoas que atendam aos quesitos de diversidade racial. Os trainees deverão rodar pelas diversas áreas da empresa e participar de um curso sobre a profissão e o mercado, o qual ainda está em fase piloto, mas que em breve deverá ser oferecido gratuitamente para estudantes de baixa renda que também se enquadrem nesse perfil. 
  
Daremos também atenção especial aos estagiários — fundamentais para a formação de quadros para o mercado editorial —, cuja seleção, assim como as demais contratações da empresa, respeitará o critério de diversidade a ser definido a partir dos dados extraídos do censo entre os funcionários.

Tradução em libras

As contações de histórias que acontecem diariamente no novo canal do YouTube Letrinhaz (Companhia das Letrinhas e Pequena Zahar) são acompanhadas por um intérprete em libras. A editora trabalha para que, em breve, todas as transmissões dos eventos virtuais passem a contar com intérpretes para a comunidade surda.

Projetos editoriais

Uma série de projetos que trarão mais diversidade ao catálogo, com autores estreantes ou já conhecidos do público, está em desenvolvimento. Além de obras já divulgadas, que em breve estarão em todas as livrarias do país — como Valentes, de Aryane Cararo e Duda Porto Souza, que traz perfis de refugiados, e a nova publicação do líder indígena e best-seller Ailton Krenak, A vida não é útil —, destacam-se abaixo alguns entre os cerca de cem projetos editoriais que estão em andamento: 
  
– Enciclopédia negra, de Flávio Gomes, Jaime Lauriano e Lilia M. Schwarcz (Companhia das Letras) 
Enciclopédia negra pretende ampliar a visibilidade das histórias de cerca de quinhentos negros e negras, apoiando-se na vasta produção historiográfica, antropológica e sociológica que se debruçou sobre a escravidão e o pós-abolição. Muitas dessas trajetórias foram invisibilizadas, por conta da violência com que são fundados e organizados os nossos arquivos, bem como as narrativas construídas e divulgadas; ainda mais quando se trata de mulheres negras e pessoas LGBTQI+ negras. O livro faz parte de um projeto mais amplo, que envolve outros parceiros como Instituto Ibirapitanga, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Soma Cidadania Criativa e Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. 
  
– Por um feminismo afro-latino-americano, de Lélia Gonzalez (Zahar) 
Com organização de Flavia Rios e Marcia Lima, Por um feminismo afro-latino-americano — título tomado emprestado de um de seus artigos centrais — reúne em um só volume um panorama amplo da obra dessa pensadora negra tão múltipla quanto engajada. São textos produzidos durante um período efervescente que compreende quase duas décadas de história — de 1979 a 1994 — e que marcam os anseios democráticos do Brasil e de outros países da América Latina e do Caribe, das reivindicações por igualdade racial nos Estados Unidos e das guerras por independência dos países africanos. 
  
– Antologia de contos (Seguinte) 
Coletânea de textos de autores de sucesso entre o público jovem, propõe mostrar diversas experiências da adolescência (como primeiro beijo, bullying, descoberta da sexualidade, conflitos com os pais, entre outros). A antologia contará com nomes como Clara Alves, Vitor Martins, Olivia Pilar e Jim Anotsu. 
  
– Carolina Maria de Jesus (Companhia das Letras) 
Conforme notícia recém-divulgada, a obra de Carolina Maria de Jesus passará a ser publicada pela Companhia das Letras, supervisionada por um conselho editorial composto por seis mulheres: Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, pela escritora Conceição Evaristo e pelas pesquisadoras Amanda Crispim, Fernanda Felisberto, Fernanda Miranda e Raffaella Fernandez. 
  
– Um apartamento em Urano, de Paul B. Preciado (Zahar) 
Um dos pensadores mais radicais e indispensáveis da atualidade apresenta uma seleção das suas “crônicas da travessia”. Com sua escrita brilhante, o filósofo espanhol analisa processos contemporâneos centrais de mutação política, cultural e sexual, como as novas formas de violência masculina, o assédio a crianças trans, os Estados Unidos de Trump, a apropriação tecnológica do útero e o trabalho sexual. 
  
– O mundo de Tayó, de Kiusam de Oliveira (Companhia das Letrinhas) 
Tayó, a conhecida personagem da educadora e referência na militância negra Kiusam de Oliveira, ganha versão em quadrinhos para falar com crianças sobre diversidade, racismo, aceitação, desigualdade de gênero, entre outros temas. Os assuntos são abordados a partir de situações típicas do cotidiano infantil, como conversas na escola e com os pais ou brincadeiras com os amigos. 
  
– Sejamos todos feministas para crianças, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letrinhas) 
Adaptação infantojuvenil do best-seller da autora nigeriana, o livro contará com ilustrações e projeto gráfico da artista e designer baiana Juliana Rangel. Além do texto adaptado pela própria autora, a obra trará uma introdução para os jovens leitores, posfácio e sugestão de atividade para pais, professores e mediadores de leitura e um glossário, todos eles elaborados pela educadora, comunicadora e pesquisadora Maitê Freitas. 
  
– Guardei no armário, de Samuel Gomes (Paralela) 
Relato de como um jovem nascido na periferia de São Paulo superou o racismo e a homofobia para lutar pelos próprios direitos — e de muitos outros como ele —, acompanhado de diversas entrevistas com personalidades LGBTQI+. 
  
– E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas (título provisório), de Emicida (Companhia das Letrinhas) 
Em seu novo livro, Emicida conta a história de uma menina que tem medo de escuro, e de outra que teme a luz. Enfrentar o medo e enxergar o que é diferente sem preconceitos é o desafio que elas devem vencer nessa narrativa repleta de poesia e encanto. 
  
– Ser mulher, de Letícia Lanz (Objetiva) 
Letícia Lanz nasceu Geraldo Eustáquio de Souza e só aos cinquenta anos, depois de três décadas de casamento, virou Letícia Lanz. Casada, mãe de três filhos e três netos, ela é psicanalista e mestre em sociologia. No livro, escreve sobre sua trajetória, as relações familiares, a transição e os conflitos inerentes a ela. 
  
– Tambores do Maranhão, de Marcelo D’Salete, Flávio Gomes e Lilia M. Schwarcz (Quadrinhos na Companhia) 
O livro trata da Rebelião de Viana, uma revolta de escravizados que ocorreu perto de São Luís do Maranhão em pleno século XIX. 
  
– Memórias, de Cacique Raoni (Companhia das Letras) 
Relato sobre a vida de uma das maiores lideranças indígenas do país. 
  
– Cida Bento (Companhia das Letras) 
Livro sobre o que a autora chama de “pacto da branquitude”. 
  
– Silvio Almeida (Companhia das Letras) 
Livro sobre estado, direito e racismo na formação do Brasil. 
  
– Thiago Amparo (Companhia das Letras), Oswaldo de Camargo (Companhia das Letras), Ferréz (Companhia das Letras), Flavia Rios (Zahar), Ronilso Pacheco (Zahar), Acauam de Oliveira (Zahar), Eliane Dias (Objetiva), Christian Moura (Objetiva).

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